«Tenho pensamentos que, pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor ao coração dos homens» Fernando Pessoa

Blog da Sara

04
Set 08

 

NAQUELA TARDE, O MENINO JESUS            
 
            Era Dezembro e estava frio.
            Devo dizer que naquele bairro da periferia de Lisboa o proverbial clima temperado do nosso país nunca se fazia sentir. Ou muito calor - no verão, com sol a bater no zinco dos telhados não havia janelas abertas que chegassem, correntes de ar que pudessem refrescar o ambiente pesado daquelas casas, noites que trouxessem uma brisa mais fresca - ou aquele frio de que as pessoas já se tinham esquecido desde o inverno anterior. E daquela vez não era como este ano: o frio era mesmo frio.
            E entretanto a chuva. Nos últimos tempos mais miudinha e constante. Sem permitir secar o lamaçal em que se tinham transformado todos aqueles caminhos desde as chuvadas da outra semana. Uma enxurrada tinha levado à frente muito lixo, é verdade, mas também tábuas que sempre haviam de ser úteis, e tanta outra coisa diversa empilhada nos recantos das barracas ou mesmo ao lado da porta.
            Não era raro haver festas imensas no bairro. Quando digo imensas digo pela noite fora, com cantos e danças, com comes e bebes - às vezes até demais; sabemos todos que o excesso faz parte da festa...- mas digo também o gosto e o cansaço para as preparar, o brilho nos olhos, os risos, a ternura, o encanto, o sonho, as estrelas de um céu de mistério que só se podiam ver quando nos deixávamos envolver e comover com elas.
            Aquela era uma festa imensa e não era uma festa qualquer.
            Tinha nascido o Manuel e os vizinhos todos se reuniam lá em casa. Tinham voltado, mãe e filho, no dia anterior, de um grande hospital. A mãe só não tinha tido mais medo porque a alegria de olhar o seu filho era maior. E de o ter ao colo. E de o cobrir de beijos: «Assim não, cuidado! que é pequenino...». O Manelzinho.
            Estavam lá todos. Isso é que era espantoso! Mesmo aqueles vizinhos com quem tinha havido problemas na semana anterior. E os que depois de uma grande discussão há tanto tempo - cenas destas também não são raras lá no bairro - tinham deixado de lhes falar. Iam chegando, ao fim do trabalho. Alguns depois de algumas horas de transportes. Nem passavam por casa para irem mais depressa.
            A festa só era possível ser assim porque todos tinham feito em conjunto o que havia para fazer. Desde os bolos às loiças, tudo era de todos...
            Foi então que eu, até ali disposto a estar perto das pessoas, a interessar-me pelos seus problemas, eu que já tinha feito um grande caminho desde os primeiros tempos em que lá chegara carregadinho de respostas e soluções, de certezas e seguranças, eu que sabia lindamente que não era verdade que tivesse para lhes dar o que quer que fosse e estava era disposto a aprender com eles, foi então que eu, dizia, com o menino nos braços, me vi envolvido por uma luz suave e quente, frágil mas constante, doce, terna, boa.
            Foram uns instantes. Para mim, o tempo todo.
            Não posso dizer que nunca mais vivi nada de parecido. Creio até que esta experiência, de uma ou de outra forma, será também tua. Ao pé de um recém-nascido damo-nos conta de que as defesas que contruímos se desmoronam, não é? A sua fragilidade desarma-nos. E, ao mesmo tempo, enche-nos de confiança e de futuro. O Verbo faz-se carne.
            Era Dezembro. E, apesar de me lembrar de tudo muito bem, depois daquela tarde já passaram muitas tardes. E bastantes dezembros.
            Acho que muitas vezes, apesar de me lembrar de tudo muito bem, ando pelas ruas, vou trabalhar, converso com amigos, ando atarefado com coisas para fazer - há umas que ficam sempre por fazer...- muito do que faço, vivo e sinto não tem nada que ver com aquela tarde. Mas sei que, se a memória que habita no meu coração fosse revisitada com frescura, tudo poderia ser bem diferente.
            E é isso que eu procuro. É isso que espero.
 
 
P. José Manuel
publicado por Sara e Teresa às 09:39

Autoras:

 

Sara Quelhas

Mª Teresa Corte-Real

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