«Tenho pensamentos que, pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor ao coração dos homens» Fernando Pessoa

18
Ago 08

 

Começa a cheirar a Outono: o vento que já se sente, o levante, marés vivas, o anúncio do regresso às aulas. É verdade, estamos a um mês do Outono. Na minha cabeça, a imagem do meu Pai que me fazia a pergunta clássica - deformação genética. “ O que acontece hoje”? O equinócio dizia eu. É verdade, naquele dia o dia e a noite são iguais para depois a noite ir crescendo até ao solstício de inverno, a maior noite do ano e que adivinha o Natal.
As estações do ano, tal como os meses, e os dias da semana sempre tiveram um significado para mim, uma cor, cheiros, sabores e muitas coisas associadas. O Outono tem associado as cores fortes de fogo, a queda das folhas, as marés vivas do mar, os recomeços. Foi então que as memórias se tornaram presentes e as saudades ternas chegaram. Lembrei-me de como eram felizes aqueles dias: o cheiro dos cadernos e dos livros novos (como é bom o cheiro dos livros novos), as tardes óptimas passadas a escolher tecidos, os lanches na Ferrari, os risos e as brincadeiras a forrar os cadernos e os livros. Eu amava tanto! Que saudades de estudar! Hoje sei, imagino quanto a minha Mãe abdicou para que eu tivesse tudo como gostava apesar de refrear o meu entusiasmo tantas vezes. Hoje dou um valor imenso. No tempo dela, não havia nada disso. Em plena segunda guerra tudo era racionado e ainda hoje ela não desperdiça nada. As preocupações eram outras: o meu Avô ouvia as notícias com o mapa em cima da mesa e explicava o que estava a acontecer aos filhos. E apesar de tudo eram felizes, muito felizes. Mas como ninguém, a minha Mãe sabia como eu gostava de tudo novo, e ainda hoje sou apaixonada por cadernos, borrachas, etc. Tenho na minha memória o cheiro da marmelada, dos doces, dos comentários, que eu ainda hoje faço, de como os dias estão a ficar mais pequenos, o primeiro dia de escola. Depois a queda das folhas, a cor dourada do Outono. O cheiro das castanhas e a fumaça e tanta, tanta coisa. Recomeço. E uma criança, Graças a Deus, feliz!
Pensei como o nosso coração é feito das mesmas estações. A questão é se somos capazes de acolher com a mesma alegria e com a mesma simplicidade o caderno novo que nele vamos escrever, se vamos usar canetas coloridas, se vamos usar borrachas que apaguem os erros, se vamos deixar cair o que é menos bom como as folhas das árvores, se vamos deixar que uma onda das marés vivas o limpe, se vamos permitir que o vento nos abane e nos faça sair da rotina de que tanto nos queixamos, mas que é tão conveniente. A questão é se vamos deixar novas pessoas entrar nas nossas vidas, se vamos deixar cair os muros que construímos, se vamos fazê-lo mais doce, se vamos deixar entrar a frescura dos primeiros ventos. Ou será que vamos apenas pensar que é mais escuro? Ou vamos antes ter um coração com as cores do fogo que o tornam mais quentinho e por isso com uma maior capacidade de amar e deixar ser amado. Dei-me conta de como nos deixamos preencher dessa coisa para nós tão importante e tão cheia chamada “eu” que não deixa espaço à novidade, aos outros, à luz dourada que o pode preencher e tornar mais bonito, que não sabe cair, magoar-se e curar-se. Em crianças caímos, magoávamo-nos, chorávamos, mas logo a seguir tudo passava e recomeçávamos como se nada se tivesse passado. O medo não nos dominava nem as nossas defesas.
O Outono convida-nos a recomeçar como em crianças. Resta saber como vão ser os nossos cadernos, os tecidos que vamos escolher, as canetas com que vamos escrever… aceitamos o desafio de reinventar o nosso coração e a nossa vida? Quando deixarmos cair as folhas que tem que cair, ficaremos com um coração mais puro, mais confiante e prontinho a que nasçam folhas novas!
Quero aproveitar o resto do Verão, se Deus quiser, para me preparar para receber a possibilidade de recomeço e com isso a possibilidade de uma vida nova como quando era criança e a possibilidade de aprender muitas coisas novas! É tão bom abrir os olhos de espanto…

Maria Teresa

publicado por Sara e Teresa às 23:37

Autoras:

 

Sara Quelhas

Mª Teresa Corte-Real

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